Para falar sobre meu letramento devo começar falando sobre minha família e influências que tive a partir desse núcleo. Minha mãe possui magistério e ensino superior incompleto, meu pai possui título de técnico em Contabilidade, graduado em Administração e pós nesta área também. A situação econômica, como já devem presumir, é boa, uma família de classe média. Tenho uma irmã - 2 anos praticamente mais velha que eu - e um irmão por parte de pai - 10 anos mais velho que eu. Assim sendo, minha formação inicial se deu com várias possibilidades e bem composta, afinal, minha família tinha essas atribuições. Portanto, levando em consideração esses fatos, meu "letramento" ou pré-letramento (prefiro chamar assim) foi bem sucedido e bastante estimulado pelos meus pais. Ingressei no ensino fundamental com 6 anos de idade, em uma escola particular, aqui em Porto Alegre mesmo. Esqueci de citar anteriormente, mas nasci em Porto Alegre, minha mãe é uruguaia e meu pai Porto Alegrense também. Voltando à iniciação na escola, então estudei até a sétima série na rede privada. Na oitava série minha família teve problemas financeiros e tive que ingressar em uma escola pública. Aqui começa uma parte muito importante da minha formação como pessoa. Essa experiência foi bastante traumatizante, lembro que eu não queria ir para uma escola pública, pois ouvíamos sempre que esse tipo de escola tem alunos delinquentes, professores ruins, eu iria perder meus amigos, e todos aquelas histórias que conhecemos da rede pública. Um detalhe importante é que essa escola é no meu bairro, a E.E.E.F. Senador Salgado Filho, então boa parte dos alunos dela eu conhecia pois eram meus vizinhos. Ao chegar lá fiquei bastante surpreso por conhecer várias pessoas, mas ainda assim eu tinha muito medo de ir nas aulas e era muito complicado pra mim encarar essa escola. Obviamente eu era mimado e "boyzinho", então pra mim aquilo era um mundo onde iriam tentar me matar, sei lá, qualquer coisa do gênero. Mas como tinha que estudar, fiquei lá estudando. Depois de uns 3-4 meses estudando nessa escola me habituei à ela e me envolvi nela, então não tinha mais medo, tinha amigos de novo, etc. Só não havia ainda conhecido a famosa realidade de escolas públicas, pois este bairro é de pessoas de classe média, então a maioria dos estudantes dessa escola eram como eu, poucos eram os alunos de vilas próximas que apresentavam a realidade de periferia.
Concluindo a oitava série eu tinha que mudar de escola novamente, afinal, essa escola era de ensino fundamental somente, então fui direcionado para a E. E. de 1° e 2° Graus Monsenhor Leopoldo Hoff. Uma escola que abriga alunos de classe favorecida (Chácara das Pedras) e de classe bastante desfavorecida (Bom Jesus). A partir do meu 2° grau que iniciei a realmente ter contato com pessoas que estavam propensas a ser delinquentes (não gosto de usar essa palavra, mas é como rotulam esse tipo de pessoa), a serem drogadas, bandidos, etc. Novamente essa fase foi traumática, mas não diria que foi muito traumática, pois eu já havia passado por uma experiência que conceituava similar, que foi ingressar na rede pública de educação. Durante meu período nessa escola eu gosto de dizer que aprendi a ser gente de verdade. Não no sentido de me tornar alguém com uma possível carreira boa, montar uma família, etc, mas sim de me tornar mais humano, de ser humanizado. Ao ver a realidade de várias pessoas desta escola, consegui entender melhor o que eram os problemas sociais, a viver vários deles, a ver a violência no dia-a-dia.
Ao mesmo tempo dessa mudança de escola, eu também aderi ao movimento punk. Então eu era destratado na rua, não me aceitavam entrar em lojas sem ter seguranças perto, a polícia toda hora me parava para ver se não era marginal, e todas outras repressões que vocês devem imaginar. Isso foi muito importante para mim, me fez abrir os olhos para um mundo que nunca havia visto antes, o mundo do Brasil (pois a maioria da população de nosso país vive nessas condições). O meu ensino na escola pública foi horrível, mas não somente pela escola (pois teve parte dessa culpa) mas também por mim. Como eu vinha de uma escola particular, minha formação básica era boa, então as aulas para mim eram muito fáceis, e para não parecer o nerd da sala, eu tirava sempre notas medianas propositalmente e não estudava. Fazendo assim minha formação educacional do ensino médio ser muito fraca.
Uma experiência bastante relevante que vivi no Leopoldão (como chamávamos a escola Leopoldo Hoff) foi que um amigo meu de infância se envolveu com uma guria. Mas um outro aluno gostava dessa guria, e ele morava na Bom Jesus. Então começou uma confusão por causa disso e esse guri da Bom Jesus, resolveu que iria agredir meu colega (Leonardo). Obviamente minha turma se juntou para defender o Leonardo, então a briga se prorrogou por umas duas semanas. Até que um dia vimos uma movimentação estranha do lado de fora da escola com vários guris que nunca tínhamos visto por alí. Um colega do guri da Bom Jesus, que era meu amigo, veio até mim e avisou que eles iriam bater no Leonardo naquele dia e que não era pra eu me meter, porque eles estavam armados. Então eu conversei com um colega meu, que morava numa vila perto do Bourbon Country, e ele pediu pro irmão dele ir armado na escola também pra podermos tirar o Leonardo de lá. No fim deu que estavam várias pessoas armadas na saída da escola, mas não teve nenhum tiroteio pois ambos os lados estavam apavorados de medo, obviamente. Então como o pessoal da Bom Jesus, bem como nós, percebemos que poderíamos morrer, tudo foi "esquecido" e não tivemos mais problemas graves como esse. Além disso, claro, também houve uma aluna que tomou uma facada do namorado (na sala de aula da minha irmã, ela também estudava lá), bomba na escola, explodiam o banheiro toda hora, etc. Acho relevante citar esses pontos, para tentar traduzir um pouco do que vivi e como formei minha opinião acerca do ensino público brasileiro. Não digo isso para ir contra o ensino público, bem pelo contrário, ele é super importante (se não fosse ele talvez até hoje eu estivesse sem concluir o ensino fundamental ou médio), mas para mostrar os vários problemas que temos - não só da escola em si, mas também da comunidade, dos alunos que a frequentam, da realidade deles, das diversas variáveis inclusas nisso - e a partir desses problemas tentarmos resolver e nos adequar a ministrar aulas em escolas assim.
Mas seguindo com minha vida escolar, então conclui o ensino médio nessa escola pública e como a renda de minha família havia melhorado novamente eu ingressei no IPA - cursando Biologia Licenciatura. Fiquei lá durante um semestre, mas não tinha dinheiro para seguir estudando e tive que trancar. Então fui em busca de trabalho para seguir meus estudos, mas eu não tive muito sucesso nisso. Ou trabalhava, ou estudava, o que se tornou bastante complicado para mim. Com o tempo eu fiz mais um semestre no IPA e tranquei novamente lá. Como já estava cansado disso, de ter que optar por estudo ou trabalho, e como não conseguia ingressar na UFRGS, decidi tentar a UFPel. Tive sucesso lá e ingressei no curso de Ciências Biológicas - Licenciatura. Me mudei para Pelotas e comecei a estudar lá. Me envolvi mais ainda com o ensino superior, tendo mais alegria de fazê-lo ainda, e iniciei um trabalho junto a um professor da área da educação que trabalhava com Educação Ambiental. Além desse projeto, estruturei junto a dois colegas e três professores uma disciplina que tínhamos carência na UFPel e em seguida fiz o extra-vestibular para a UFRGS e consegui voltar para casa para estudar aqui.
Finalmente, após vários anos, consegui entrar na UFRGS e agora continuo minha formação de professor de Ciências Biológicas.
Finalmente, após vários anos, consegui entrar na UFRGS e agora continuo minha formação de professor de Ciências Biológicas.
Como está escrito acima, a experiência que considero mais importante na minha vida foi ter mudado de uma escola particular para uma pública. Isso foi bastante traumatizante e acredito ter sido uma dos principais motivos de ter escolhido virar professor.
Um professor que me marcou muito foi o Professor Edson Zeffa, que é especializado em Zoologia e ministra aulas na UFPel. Ele é uma pessoa com uma trajetória de vida muito forte e de várias lutas. Teve muitos obstáculos para chegar onde chegou e é a única pessoa que eu conheço que posso dizer ter quebrado o capital cultural (Bourdieu) em que se situava e ascendendo para o de uma classe superior. Além disso, esse professor é um exemplo de competência, de dedicação, de empatia, etc. Ele não priva o conhecimento de ninguém, e por ter vivido uma "exclusão" social, ele sabe muito bem o quão cruel e viciante é o ciclo social que vivemos. Sendo assim ele busca tocar a todos, sendo estudantes universitários ou não. E claro, suas aulas são muito boas, ele está sempre disposto a ajudar e vive para ensinar, ao invés de ensinar para viver (como vemos com muita frequência por ai).
Também conheci um professor que me identifiquei muito na UFPel, o Professor Robledo Gil. Nós tivemos uma vida muito parecida, nos envolvemos com coisas parecidas, buscamos pontos parecidos, etc. Me identifico bastante com esse professor e também respeito muito o trabalho dele e sua tentativa de ajudar a população geral com projetos na comunidade, além de mostrar para os alunos da graduação vários problemas que devem ser sanados e podem ajudar muito a sociedade.
O que aprendi com esses dois professores é sempre agarrar as oportunidades que a vida nos dá, pois podem ser únicas, ser dedicado, visar o bem de outros, honrar os compromissos e sempre se observar antes de tentar entender algo diferente. Pois muitas vezes opinamos certas coisas sem vermos realmente como somos sobre aquilo, e toda opinião e ideia é imparcial. Temos que entender isso, para sabermos o quão imparcial seremos e o quanto isso pode influenciar positivamente ou negativamente na opinião que temos.
A influência da família na escolha de minha profissão foi muito forte na minha opinião. Sempre me ensinaram o quão importante era cuidar dos outros, se dedicar a sociedade, ter conhecimento e passá-lo para outras pessoas. Enfim, são vários motivos, mas principalmente os que se criaram a partir para ser mais humanista. Penso muito nos outros e acho que esse é o principal motivo de ser professor, pode influenciar nas pessoas e moldá-las para serem melhor, mas sempre tomando muito cuidado, pois o que é melhor para mim pode não ser o melhor para elas.
Basicamente é isso.
Daniel.
Basicamente é isso.
Daniel.
Oi Daniel!
ResponderExcluirÓtima tua narrativa, muito rica de detalhes, nos transporta para a tua história. Nela tu nos mostra que tiveste a oportunidade de conhecer dois lados da realidade da educação no Brasil, que é tão diversa. Essa experiência será de grande valor no teu caminho como docente, assim como são importantes todas as experiências vivenciadas por nós e que fazem parte da nossa trajetória. Também citaste exemplos de professores que marcaram tua vivência acadêmica, e o que mais ficou registrado em relação a eles foi a ideia da observação, do pensar sobre si e sobre os outros antes de agir, a noção, como tu disseste, da "imparcialidade" do pensamento. Importante. Pois sabendo que a relação professor/aluno é principalmente composta de trocas, de convivência e aprendizado mútuo, essa ideia se faz fundamental.
Boa sorte nesta jornada,
abraços,
Anelise.