Vou agora tentar relacionar um pouco o que TARDIF traz em seus escritos. Quando comento de minha vida, e cito que desde o nascimento já temos uma inserção na docência, e que com o passar dos anos continuamos cada vez mais nos envolvendo com ela, tenho como sustendo o trecho onde TARDIF diz “o tempo de aprendizagem do trabalho não se limita à duração da vida profissional, mas cobre também a existência pessoal dos professores, os quais, de um certo modo, aprenderam seu ofício antes de iniciá-lo”. Claro que aprendem antes de inicia-lo, mas eu busco um pouco anteriormente ao citado no texto, onde é citado que ao estarmos na escola já vemos como os professores são, estereotipamos, rotulamos o modo de ser, formulamos em nossa mente uma espécie de modus operandi do professor. E apesar de ser uma construção que se dá aos poucos, ela irá ser resgatada drasticamente no futuro ao nos tornarmos professores, sendo para “imitarmos” algumas maneiras ou para não fazermos aquilo que achamos desnecessário ou nos trouxe desgosto durante nossa época na escola. Mas gostaria de trazer aqui um ponto que cito em minha postagem, começamos antes ainda a sermos docentes, até porque a docência para mim está intrínseca no ser humano, bem como em vários animais. Nós nascemos em um mundo envolto por isso, aprendemos a nos portar em devidos lugares, em devidas situações, etc.
Vou trabalhar agora com outra parte do texto, onde é citado que “os saberes profissionais dos professores eram plurais, mas também temporais, ou seja, adquiridos através de certos processos de aprendizagem e de socialização que atravessam tanto a história de vida quanto a carreira.”. Essa frase me chama muito a atenção, pois reforça o que havia citado anteriormente e também onde falo em minha postagem anterior que minha família já tinha uma pré-determinação para eu assumir algumas profissões, e uma delas é a docência. Minha mãe era professora e trabalhava com crianças, meu núcleo social era favorável a esse caminho, minhas experiências na escola e adolescência me trouxeram motivos para me tornar professor, de tal maneira que me aproximaram desse campo sem nem mesmo eu perceber isso, e ao perceber fiquei totalmente encantado com essa profissão. Então, os meus saberes temporais, bem como o meio social onde estou inserido, me aproximaram drasticamente desse caminho que hoje sigo e pretendo seguir para o resto da vida.
“se é verdade que a experiência do trabalho docente exige um domínio cognitivo e instrumental da função, ela também exige uma socialização na profissão e em uma vivência profissional através das quais se constrói e se experimenta pouco a pouco uma identidade profissional, onde entram em jogo elementos emocionais, relacionais e simbólicos que permitem que um indivíduo se considere e viva como um professor e assuma, assim, subjetivamente e objetivamente, o fato de fazer carreira no magistério.”. Aqui vou falar mais pelo que já vi, até porque não atuei ainda diretamente como professor. Já lecionei algumas aulas, trabalhei em um projeto de pesquisa com extensão em escolas, etc., mas a grande verdade é que, como citado no texto, o professor leva de 3 a 7 anos para se sentir a vontade com a profissão. Como não tenho esse tempo ainda de docência em escolas, não me considero ainda um professor (no sentido mais direto da palavra). Mas pelo que já vi e ouvi falar, concordo totalmente com esse trecho do autor. É comum ouvirmos aquela antiga história: “Ah! Mas eu me formei e fui dar aula, e ao chegar na escola foi um choque! Eu vim com idéias novas, revolucionárias, tentando melhorar algo e no fim fui vetado. Cortaram minhas asinhas. Os outros professores me disseram que nessa escola as coisas funcionavam diferente, que eu teria que me adequar à suas maneiras de ser e à maneira com a qual o conteúdo era passado nessa escola.”. Basicamente isso já cansei de ouvir. E o que tiramos daqui? Vou começar pela ilusão. É muito comum vermos professores ingressarem em escolas e se desiludirem totalmente com os métodos de ensino adotados por algumas escolas, pela forma de ser de alguns colegas de profissão, pela realidade do local, etc. É claro que isso vai acontecer, cada um de nós temos nossas individualidades, tivemos formações diferentes, em tempos diferentes, em contextos sócio-históricos diferentes. Somo únicos a medida em que vivemos e o “eu” de hoje não será o “eu” de cinco segundos depois. Tendo assim nossas individualidades, ao chegarmos na escola encontramos um ambiente social totalmente novo em que devemos nos inserir, e obviamente para isso precisamos nos adequar a esse ambiente novo. Imagina que você viveu toda uma vida na classe privilegiada, com riquezas infinitas, luxo, etiqueta, etc., e de repente a vida desaba e você vai a total falência. Tem que se mudar, ir morar na periferia, em meio às pessoas menos abastadas (bem menos por sinal), então você chega lá com seu modo de ser totalmente diferente do deles. Não irá demorar muito para acontecer uma de duas coisas: ou você irá se adequar àquele meio e conseguirá ficar bem, ou você não irá mudar e será excluído socialmente na mesma hora, sem piedade nenhuma do ser social que ali rege. É o mesmo que acontece nas escolas, ou nos adequamos, ou iremos sofrer as conseqüências do “ser social” que ali existe. Podemos notar também que temos uma gigantesca taxa de desistência por parte dos professores pelo trabalho de docência. A evasão é gigante em nosso emprego, já notaram? Já pensaram o porquê? E porque só é considerado que somos definitivamente professores após um tempo que está na faixa de 3 à 7 anos de profissão exercida? Não sou matemático, mas vou me aventurar de leve em uma fórmula básica para nosso mundo atual: tempo + ambiente = socialização.
Buscando um pouco do que acabo de falar, é por isso que concordo plenamente com um argumento exposto no texto da NUNES, C. “considerada pelo autor como a mais urgente, seria a reflexão da sua própria Educação & Sociedade, ano XXII, nº 74, Abril/2001 39 prática de ensino pelo professor universitário de forma a minimizar o abismo existente entre as “teorias professadas” e as “teorias praticadas”. É por isso que devemos nos interar mais do assunto prático de nossa profissão, mesmo muito antes de chegarmos nas escolas, para evitar esse abismo que há entre o campo teórico e o campo prático de nosso trabalho. A maioria de nós já escutou várias e várias vezes que aquilo tudo que aprendemos na universidade podemos por no lixo ao irmos para uma escola. Não concordo em pormos no lixo, senão eu nem estudaria mais na universidade, mas concordo que é pouco utilizado ou não utilizado. Mas levanto aqui um pensamento, não conseguimos utilizar porque o ambiente é desfavorável a isso? Por falta de esforço nosso? Por precisarmos de uma revolução na escola ou por ela já estar passando por uma (sem termos notado) e a escola mudar para se adequar mais aos ambientes sociais em que ela está inserida ao invés de conteúdos a transmitir? Bom, fica a reflexão.
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