A jornada docente de qualquer pessoa tem início ao seu nascimento. Desde o momento em que nos deparamos com o mundo nós já começamos a molda-lo. Ensinamos nossos pais diversas coisas, algumas que talvez eles já tivessem conhecimento teórico mas não o prático. Então, estamos envolvidos na carreira docente desde o momento em que interagimos com os outros. Por exemplo, quando o bebê começa a chorar é porque algo ele quer. Ele está nos mostrando que o choro é por necessidade de algo, comida, conforto, carinho, etc. Então nós vamos tentando de tudo até acertarmos o que o acalme. Depois de um tempo, é comum os pais assimilarem tipos de choros ou comportamentos para cada necessidade da criança, assim notamos que os pais aprenderam com a criança. Partindo desse pressuposto digo que nossa carreira docente se dá início mesmo no berço, somos professores natos.
Nossas decisões são influenciadas pelo ambiente em que estamos inseridos – segundo Vygotsky (teoria do contexto sócio-histórico) – e bem como citado pelos textos de TARDIF & RAYMOND e NUNES, Célia - e , nossa formação, desde aspectos econômicos, sociais, culturais, etc., nos influência na tomada de decisão sobre nossa futura profissão, no meu caso a docência.
Vários motivos me levaram a escolher a docência como profissão futura. A grande verdade é que até meus 16 anos não tinha idéia do que queria fazer da vida. Essa fase da minha vida era muito turbulenta (como a da maioria dos adolescentes) e ainda estava tentando entender porque temos tantos problemas sociais. Claro que poderia ter escolhido Sociologia, Ciências Sociais, ou áreas próximas a estas para ajudar a sociedade. Porém eu sempre me identifiquei muito com animais, e também sempre consegui me “comunicar” muito bem com eles, algo me dizia que eu devia lidar com eles. Assim, ao concluir o ensino médio eu ainda estava com grande dúvida do que queria fazer da minha vida, mas decidi ingressar na biologia. Definitivamente eu achava muito interessante e lindo o mundo natural, não tinha dúvidas do que queria fazer, mas ocasionalmente eu entrei no curso de Licenciatura em Biologia. Até o então eu tinha me decidido trabalhar com animais, mas diretamente na área de pesquisa, nunca havia cogitado a idéia de dar aulas.
Depois de ter feito um semestre no curso de Licenciatura que fui começar a perceber do que realmente se tratava aquilo, e com o tempo descobri que eu podia ser professor/pesquisador caso tivesse uma pós-graduação e me tornasse professor universitário. Essa descoberta pra mim foi fundamental, pois percebi que podia ajudar a sociedade utilizando a ferramenta Escola e ao mesmo tempo pesquisar sobre animais, e o melhor de tudo, ganhando um salário digno de tal profissão.
A partir daqui comecei outra batalha, a de entrar na UFRGS. Eu estudava no IPA na época e tinha 17 anos quando ingressei lá, mas como estudei todo ensino médio em escola pública, e na minha opinião muito fraca, eu tive grandes dificuldades pra fazer um vestibular bom. Lembro que duas vezes não passei no vestibular por uns cinco pontos. Mas continuei levando aos poucos no IPA e sempre pensando em ser professor, principalmente pelo que vivi e pensando em ajudar as pessoas que tem todas as necessidades pelas quais já havia visto outras pessoas passarem.
Em um certo ano resolvi arriscar entrar na UFPel pelo ENEM, afinal, eu sempre fiz o ENEM com o intuito de ajudar o governo a averiguar como anda o ensino no país. Então tentei entrar lá e consegui. Lá consegui me interar muito melhor de assuntos sobre pesquisa/docência que as universidades oferecem e também descobrir muito mais sobre o mundo da docência. Fiquei totalmente fascinado por essa área. É lindo ver o quão influente é esse trabalho e como é possível melhorar a vida das pessoas só com “simples” palavras e gestos. Claro que tive também minhas decepções, como ao saber a péssima maneira que é utilizada a Escola – como cita Bourdieu ao falar do capital cultural e de como o Estado utiliza disso para manter o ciclo social que prefere, onde também vemos Platão comentar que a Educação é algo que o Estado deve se apoderar para formar seu futuro bem como entende – e de vários profissionais que trabalham na docência, porque não tem onde mais trabalhar. É interessante levantar esse ponto, pois, na Biologia todos sabem que os bacharéis que não continuam sua formação com uma pós-graduação tem chances ridículas de ter emprego e ganhar bem, mas na Licenciatura apesar de se passar dificuldades, algum emprego você irá conseguir – desculpe colegas biólogos, mas sabemos que isso é uma verdade (que considero mais um insulto a nós biólogos do que qualquer outra coisa) e que deve ser mudada. E bom, percebendo isso, reforcei mais minha idéia de tentar melhorar a situação de nossa sociedade, tentando dar mais possibilidades de ascensão social e econômica para as pessoas.
A grande verdade é que eu queria lecionar em escolas públicas, mas todos sabem que o salário é incomparável ao de um professor universitário, o que acho ridículo. Os professores de ensino básico, médio, superior, técnico, etc., tem a mesma responsabilidade, todos eles. São situações diferentes com caminhos diferentes de conteúdos a se ensinar, mas todos têm valor equiparável ao levarmos a um contexto mais amplo de análise. Tendo em vista isso, e que precisamos de dinheiro para se ter uma vida boa hoje em dia, pretendo então concluir meu ensino superior e após isso ingressar em um Mestrado e conseqüentemente em um Doutorado.
Bom, mas tentando sintetizar esse resumo de porquê escolhi a docência, gostaria de levantar alguns pontos, como o de tentar mudar a situação das pessoas nesse país em que vivemos, talvez por meus pais terem sempre me mostrado como é importante ajudarmos os outros e minha mãe já ter atuado nessa área, por achar fascinante esse tipo de atividade, por gostar muito de ajudar as pessoas – mesmo que seja uma ajuda mínima – e acredito que seja basicamente isso. Para alguns pode parecer ridículo, mas também acho que é karma.
Basicamente é isso, me despeço por aqui.
Basicamente é isso, me despeço por aqui.
Olá Daniel,
ResponderExcluircomo sempre tuas narrativas são bastante espontâneas e nos fazem te conhecer melhor, bem como tuas opiniões sobre a situação da educação. Aguardo agora que tu relaciones a tua história de construção docente com os textos discutidos na sala de aula e sugeridos pela professora Nádie, para que possas aprofundar as discussões que tu nos propõe e ir adiante, tendo mais ferramentas para alcançar teus propósitos.